Minas Gerais é o segundo estado mais populoso do Brasil, com população estimada em mais de 21,4 milhões de habitantes (IBGE, 2026), e o primeiro em número de municípios (853 ao todo). Possui o terceiro maior Produto Interno Bruto (PIB) do país e uma expressiva taxa de urbanização consolidada a partir de meados do século XX. Não obstante, o estado constitui um mosaico de regiões com traços geográficos, históricos, sociais e culturais muito diversos, o que dificulta tanto a compreensão de seu conjunto quanto a formulação de políticas públicas voltadas à melhoria das condições de vida da população.
Em virtude desse quadro, o território demanda pesquisas profundas e sistemáticas, bem como ações educacionais e de assistência capazes de difundir o saber e mitigar disparidades socioeconômicas e regionais. Paralelamente, o setor produtivo requer profissionais cada vez mais capacitados para enfrentar, sob os pilares da responsabilidade social e da sustentabilidade, os desafios de um cenário globalizado e altamente competitivo.
Muitas cidades mineiras originaram-se de arraiais e povoados do período colonial, articulados ao processo de interiorização da América portuguesa. A ocupação territorial remonta ao século XVII, impulsionada pelas bandeiras em busca de ouro, pedras preciosas e mão de obra indígena escravizada. No século XVIII, a exploração mineral desencadeou conflitos marcantes, a exemplo da Guerra dos Emboabas (1707–1710), da Revolta de Felipe dos Santos (1720) e da Conjuração Mineira (1789).
Concomitantemente à atividade mineradora, diversas regiões se voltaram à produção de subsistência para abastecer vilas, cidades e a própria capital do Império, promovendo a ocupação de áreas antes periféricas, como a Zona da Mata. Onde hoje se localiza o município de Viçosa, essa porção territorial tornou-se uma das mais ricas e dinâmicas de Minas Gerais a partir do final do século XIX, puxada pelo café, motor do adensamento demográfico, da urbanização e da infraestrutura de transportes. Nesse cenário, Juiz de Fora despontou como polo regional de atividade industrial, enquanto Cataguases destacou-se pela vanguarda cultural do Modernismo brasileiro, dando continuidade à tradição mineira de abrigar manifestações artísticas expressivas do país.
A aliança com São Paulo na “política do café com leite” consolidou a proeminência política mineira, cujas lideranças já ocupavam posições centrais desde o século XIX e seguiram determinantes em eventos históricos decisivos: a Revolução de 1930, o Estado Novo, o Golpe Civil-Militar de 1964, a campanha pelas Diretas Já e a redemocratização. Da década de 1930 em diante, a siderurgia e a mineração industrial ganharam impulso e, somadas aos setores de serviços e agropecuário, fundamentaram o protagonismo econômico do estado no país.
Em termos geográficos, o relevo mineiro é acidentado e marcado por terras altas, com destaque para o Maciço do Espinhaço (Serras da Moeda, do Cipó e do Caraça), a Serra da Mantiqueira, a Serra do Caparaó, a Serra da Canastra e a Chapada do Espigão Mestre, referências históricas, econômicas e turísticas. As bacias do São Francisco, do Paraná e dos Rios do Leste também têm suas nascentes em solo mineiro. A abundância mineral viabilizou indústrias de transformação em polos como Ouro Preto, Congonhas, Caeté, Sabará, Itabira, São Gonçalo do Rio Abaixo e Itabirito. Historicamente, o estado concentra parcelas expressivas da produção nacional de ferro-gusa, aço, automóveis e cimento. No agronegócio, Minas Gerais mantém-se como o maior produtor de café do país (respondendo por cerca de metade da safra nacional), o principal polo da bacia leiteira brasileira (com mais de 25% da produção do leite inspecionado), detentor do segundo maior rebanho bovino do Brasil e destaque contínuo na produção de grãos e tubérculos, como feijão e batata.
Entretanto, a exploração intensa de recursos naturais e a expansão econômica impõem desequilíbrios severos, que recaem sobretudo sobre a população de baixa renda. Desflorestamento, processos erosivos e assoreamento de cursos d’água, somados à ocupação desordenada de encostas, várzeas e periferias urbanas, provocam perdas humanas e materiais contínuas. A concentração urbana e a atividade industrial elevam os índices de poluição atmosférica e acúmulo de resíduos, gerando impactos diretos na saúde pública, nas dinâmicas climáticas e na qualidade de vida. Agravam esse cenário as assimetrias inter-regionais: territórios economicamente dinâmicos convivem ao lado de áreas estagnadas, estimulando migrações internas.
Assim como o patrimônio natural, o patrimônio cultural exige ações urgentes de preservação, conservação e difusão. Apesar da atuação de órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) e o Arquivo Público Mineiro, o estado ainda se ressente da escassez de iniciativas contínuas para proteger seu acervo contra a degradação temporal e outros riscos. Documentos e acervos históricos sob custódia de cartórios, fóruns, prefeituras, igrejas e órgãos públicos aguardam medidas urgentes de salvaguarda, pesquisa e apropriação comunitária e escolar.
Não por acaso, a Zona da Mata já foi designada como “zona silenciosa” da historiografia mineira, decorrência do acesso restrito a fontes documentais e da escassez de estudos sistemáticos dedicados à sua trajetória. Embora os municípios possuam órgãos e conselhos municipais de patrimônio, carecem de profissionais qualificados para formular e executar ações sistemáticas de preservação e extroversão. Com isso, perdem-se recursos públicos de fomento e mantém-se reduzido o volume de bens inventariados e tombados, sejam materiais ou imateriais.
Idêntico desafio atinge comunidades remanescentes de quilombos, que demandam pesquisas de base para a titulação e demarcação de seus territórios e a implementação de políticas de transporte, educação e geração de renda. A memória desses quilombos, bem como a de assentamentos rurais e outros grupos tradicionais, compõe um patrimônio de alta relevância social e cultural cuja salvaguarda exige ações imediatas.
Paralelamente, Minas Gerais reúne expressivo potencial turístico centrado em suas cidades históricas, arquitetura colonial, estâncias hidrominerais e unidades de conservação voltadas a esportes de montanha, canoagem e espeleologia. Destacam-se ainda o turismo religioso, apoiado em templos e acervos sacros coloniais mantidos por irmandades leigas, e o turismo gastronômico, fundamentado nas tradições culinárias locais. Contudo, ambos os segmentos encontram entraves na carência de quadros técnicos habilitados para inventariar, registrar e difundir esse potencial de forma qualificada.
No plano educacional, a presença de instituições de ensino superior de renome é uma marca do estado desde o século XIX, inaugurada pela Escola de Farmácia (1839) e pela Escola de Minas de Ouro Preto (1876), fundada pelo cientista Claude Henri Gorceix a pedido de D. Pedro II. No século XX, consolidaram-se a Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas (1914), a Escola Superior de Agricultura de Lavras (1908, atual UFLA), a Escola Superior de Agricultura e Veterinária em Viçosa (1926, que deu origem à UEMG em 1948 e tornou-se a UFV em 1969) e a Universidade de Minas Gerais (1927, embrião da UFMG, integrando a Faculdade de Direito de 1882, a Escola Livre de Odontologia de 1907 e as Faculdades de Medicina e Engenharia de 1911). Na segunda metade do século XX e nas primeiras décadas do século XXI, o ensino superior capilariza-se por todas as regiões em redes públicas e privadas.
Apesar dessa respeitável trajetória institucional, a oferta educacional está longe de cobrir as demandas regionais, em especial nos campos da História e da Geografia. A carência de profissionais com formação aprofundada manifesta-se tanto nas redes básica e média quanto em órgãos públicos, movimentos sociais, iniciativas turísticas, projetos de planejamento urbano e instâncias de gestão e análise socioambiental.
Os profissionais atuantes nessas frentes também encontram barreiras para a continuidade de seus estudos: os cursos de pós-graduação stricto sensu em História e Geografia no estado concentram-se predominantemente na modalidade acadêmica tradicional, com escassa oferta voltada à prática e à formação docente continuada. Como resultado, dissertações e teses sobre o ensino dessas disciplinas acabam absorvidas de forma dispersa por programas de Educação, configurando produções esporádicas que não suprem a demanda por pesquisas aplicadas continuadas.
Diante dessa lacuna, o Departamento de História e o Departamento de Geografia da Universidade Federal de Viçosa propõem suprir as necessidades da região por meio da formação continuada em nível de mestrado profissional. A iniciativa conta ainda com a colaboração ativa de docentes e pesquisadores de outros departamentos da UFV cujas trajetórias de pesquisa, ensino e extensão articulam-se organicamente ao escopo da proposta.